DIOR: A bruxa está solta em Paris

“Why have there been great women artists?”. Essa é a estampa da camiseta-chave que abriu o penúltimo desfile da Dior – o Ready to Wear 2017 – sob direção criativa de Maria Grazia Chiuri. Incômodo, no mínimo, não é mesmo!? A irônica pergunta é também o título do artigo da historiadora Linda Nochlin. Nele, Linda analisa a noção de “grandiosidade artística”, ou seja, o fato de pesquisadores de história da arte tratarem a genialidade de forma inata – você nasce com ela e não tem como desenvolver – e, com isso, não levam em conta o contexto histórico, social, econômico e, especialmente as questões de gênero que contribuem para isso. O estudo responde à pergunta constatando que os grandes nomes da Arte tiveram mais oportunidades de acesso às instituições de ensino e possibilidades de dedicação integral à carreira por questões financeiras, sem contar o fato de que mulheres deveriam se dedicar à família e aos ofícios da casa.

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“A culpa não está em nossas estrelas, nossos hormônios, ciclos menstruais ou espaços internos vazios. Mas em nossas instituições e em nossa educação. Considerando que educação inclui tudo o que nos acontece desde o momento em que entramos no mundo de símbolos, signos e sinais.” (NOCHLIN, 1971: p.28)
Há quem diga que essa é “mais uma marca que se apropria do discurso feminista para vender mais”. No entanto, essa é a hora em que a Dior se REDIME historicamente com as mulheres que vestiu. Seja pela escolha do casting com modelos que também possuem carreira nas Artes visuais, como no uso das ilustrações criadas por Niki de Saint Phalle aplicadas nas peças. Mas isso não é só sobre simbolismo, afinal, Maria Grazia dá voz, espaço e visibilidade para as mulheres, desde seu primeiro instante na marca. Podemos começar por ela mesma – que é a primeira mulher a ocupar a direção criativa da Dior. E que em sua estreia, em setembro de 2017, trouxe à passarela uma camiseta com o slogan “Devemos ser todas feministas”, título de um ted e um livro – entre os mais vendidos entre 2016/2017 – de autoria da ativista Chimamanda Ngozi Adichie. De cara Grazia dá o seu recado: a mulher da Dior mudou. A moda mudou. O MUNDO MUDOU.

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E não basta ter uma, duas ou várias camisetas, ela constrói a cada desfile um novo capítulo desse novo momento da marca. Em sua última passagem pela passarela da Alta Costura primavera/18, a Dior mostrou que realmente quer responder aos questionamentos que faz. Maria Grazia buscou, mais uma vez, homenagear as mulheres que admira e a inspiram, como a artista surrealista Leonor Fini. ELA POR SI JÁ SERIA A RESPOSTA PARA MUITOS PONTOS. Leonor Fini é um exemplo de artista cujas obras sofreram boicote e desvalorização em sua geração. Mesmo rodeada de elogios e também de duras críticas a forma como se expressava/comportava de maneira pessoal (uma amante notável e livre de moralidades, rs), e sendo próxima de nomes como Picasso e Di Cavalcanti, a artista sempre foi apontada apenas como “mais uma bela mulher” nas rodas sociais. Tendo assim, sua criação minimizada e seu nome – quase sempre – esquecido em meio “aos grandes” que despontavam na época e hoje são os ditos “figurões da arte surrealista”. O próprio André Breton, fundador do movimento, não a aceitou como integrante, pois segundo ele “as mulheres não podem ter uma posição central na arte”.

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Mas nesse caso, apesar de ofuscada, Leonor era uma mulher muito transgressora em um mundo dominado pelo machismo e por isso, até essa postura foi subvertida e era explorada quase sempre como a de uma mulher sensual e nunca como artista. Algo que ainda acontece muito atualmente, segundo dados da coletiva Guerrilha Girls, em linhas gerais, nas exposições que pesquisou ao redor do mundo – 60% das obras de arte nos grandes museus retratam mulheres nuas e só de 2 a 3% incluem obras de artistas mulheres em exposições e acervo. Há quem diga que Leonor foi a mulher mais fotografada do século 20 e, mesmo assim, pouco se conhece sobre sua extensa obra. Parece que “os fins justificam os meios”, não é mesmo? Especialmente se os “meios” são a favor de silenciar a arte de mulheres e privilegiar homens, mais uma vez.

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Histórico e referências artísticas à parte, no desfile, a Dior traz vestidos de festa, que – apesar da poucas variações de forma – são muito simbólicos, principalmente dentro da casa do New Look. Maria desenha modelos que deixam o corpo à mostra, o tule que revela e a roupa que não mais aprisiona, mas liberta e respira.

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Nos sapatos, o salto baixo é mais um sinal de que Maria está antenada com os anseios das novas gerações. Os jovens não gostam de salto altos e as marcas de luxo aderiram de vez essa nova realidade.

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Na passarela, o preto e o branco representam as cores do inconsciente humano e surgem também na padronagem xadrez em pleno Museu Rodin, em Paris, gaiolas e pássaros povoam o teto da cenografia lado de corpos suspensos o ambiente a fim de criar uma atmosfera surrealista.

Dior, Fashion Show, Couture Collection Spring Summer 2018 in Paris
Dior, Fashion Show, Couture Collection Spring Summer 2018 in Paris

Já o ponto alto do desfile, além do discurso implícito, são as máscaras de Stephen Jones –  em homenagem a Peggy Guggenheim,  que exibiu as obras de Fini em 1943,  na  “Exposição de 31 artistas femininas”.

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Entre uma chuva de referências e dando aula de Arte na passarela, a Dior surge como um tiroteio sem fim e seu mais certeiro, obviamente, foi na escolha da nova diretora criativa.

…diretora esta que segue a cada dia mais bruxona. Tanto que referencia às mulheres (alquimistas ou não) que eram ditas “bruxas” por seus questionamentos por meio da estética “trevosa” com pretos, rendas, tules e outras possibilidades que surgem de forma leve e nos olhos bem marcados das novas bruxas da atualidade. Sem contar as influências mil de Tarot em suas peças.

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Por fim, Maria traz a elegância sincera de quem sabe exatamente o que faz. E possivelmente tenta de forma genuína “corrigir” uma história míope, seja na moda ou nas veias abertas de nossa sociedade. Seu desfile possui tantas camadas que a cada uma delas há sempre uma nova descoberta. Um novo aprendizado que te levam a textos e questionamentos que a maioria de nós nunca parou para ler e pensar. O feminino sempre foi usado contra nós mesmas como uma ferramenta de submissão: mulheres são frágeis demais, delicadas demais, “mulherzinhas” demais e superficiais demais… Até mesmo o Sr. Dior usou esse “feminino” criando o new look, que não tinha a menor funcionalidade para tempos de pós-guerra e foi utilizado apenas para capitalizar mais em tempos de crise. No entanto, esse é mais um papel de submissão escolhido por homens. Um papel que não temos obrigação de aceitar, mas sim, sempre questionar e bater de frente sempre que nos for imposto. Afinal, SEMPRE EXISTIU MULHER EM TUDO, sejam aceitas ou não.

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